terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A Lua do Zé do Tetel e do Dersu



Chegando em casa hoje fotografei a Lua. Então me veio na lembrança uma conversa que tive com o amigo e fotógrafo José Caldas. Confessando a dificuldade que tinha em fotografar a lua, ele me deu a receita. Disse assim na época: "Guarim, é mole, não tem mistério. A luz da lua é a mesma luz do deserto".
Nunca mais esqueci daquela frase que certamente o Zé não vai lembrar de tê-la me dito. Tempos idos fui ao Atacama, o deserto mais seco e também, certamente, o mais colorido do mundo. Por volta das duas da tarde a regulagem da câmera tava dando 250/11 com 200 iso. Esta era a fórmula e eu já estava apto a fotografar o satélite dos namorados.
Conheci o Zé no bar ao lado da Manchete onde esperávamos pelo Tetel. Tetel era o laboratorista da Bloch e herói de todos os fotógrafos duros da época. Subversivamente revelava nossos cromos junto com os da revista, numa época em que errar na fotografia era o equivalente a perder um filme que sempre foi caro e da ultima vez que fiquei curioso em saber já estava pelos R$ 30,00 o rolo. O passar do tempo somado ao que já passou certamente me perdoará esta confissão.
Certa feita dei de presente ao amigo laboratorista que morava em Coroa Grande um pé de abacate que cultivei no apartamento até os 90 cms de altura. Em um de nossos encontros furtivos vi o Tetel muito puto. A vaca do vizinho tinha comido o pé de abacate até o talo. Tragédia pouca é bobagem, pouco tempo depois ele me falou que seu gavião de estimação, que cuidava com tanto carinho, tinha comido um franguinho já bem criado.
-Dei uns tapas nele pra aprender a nunca mais comer meu pinto! Desabafou pouco tempo antes de, por uma contingencia tecnológica, perdermos o contato.
Ontem fui `a Restinga de Marambaia, e vi um sol se pondo de um lado e a lua nascendo de outro ponto do mesmo céu. Lembrei do Dersu Uzala do Kurossawa que filmou uma cena assim. Aquela lua me lembrou a fórmula do Zé que me trouxe na lembrança o Tetel que me faz lembrar o Dersu Uzala do Kurossawa que filmou uma cena assim

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Sentimento Blues






Lembro bem a primeira vez que ouvi um Blues. No terceiro andar do Rio Sul tinha uma loja de discos, HiFi. Tocava uma música que eu não sabia bem o que era mas tinha certeza de que não precisaria ouvir outra coisa depois disso. O vendedor me mostrou a capa de um disco do Little Walter.
Outra feita, entrei eu num show bem apertadinho num espaço mínimo no sótão do Castelinho do Flamengo. Ouvi All Your Love, um clássico do gênero, tocado com proficiência pelo Suburblues, uma banda que depois viria saber, era expoente do estilo. Por uma feliz acolhida ao tiete troquei figurinhas com o guitarrista e desde então meu grande amigo.
Alexandre Barcelos é daqueles difíceis de categorizar com um texto tão pobre e restrito. Trabalha cada nota no instrumento com a maestria de um escultor que dá forma ao mármore. Apesar disso, seu virtuosismo elegante o mantém no palco como coadjuvante de um espetáculo grandioso. Teimosamente porém, a luz o acompanha.
Nesta última edição do Stormy Tuesday subiram ao palco Alexandre Barcelos e a vocalista Stefania Blink relembrando o Suburblues com sua pegada de Diva. Bem pertinho, Otavio Rocha e Charles Zanol atrairam todos os olhares para uma disputa entre guitarras reais e imaginárias. Ao Fundo Beto Werther, e eu sempre me pergunto por que não acima, suspenso para que todos o vejam acariciando bumbos e pratos. Pois mesmo não tendo a menor vaidade como a musa do avô, Cesar Lago ao baixo está merecidamente sempre de e a frente.
Aquela música que eu não sabia bem o que era quando entrei na loja de discos, hoje tem pra mim uma tradução fácil. O Blues é na verdade uma reunião dos que muito se gostam. Eu comprei o vinil que tava tocando e desde então Valtinho e todos os seus amigos me fazem companhia.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Uma jaca jaz






Precisei aguardar, fazer uma hora de 30 min. Entrei e abrigado pelos portões do Parque Lage registrei alguns detalhes do casarão e seu jardim.
Contam a lenda e a história que aquela propriedade era um engenho de açucar que se chamava Del Rei. Em 1920 Henrique, herdeiro da família Lage, construiu o casarão como uma declaração de amor. Um mimo para a Esposa e cantora lírica Gabriela Bezanzoni.
Lage Misturou vários estilos como era de bom tom na época e pôs um guerreiro de pedra na parede lateral que vigilante observa os que chegam trazendo pra casa a modernidade de nossos dias. O jardim é grande e no seu caminho uma jaca jaz. A luz entra de forma generosa e dá vida `as folhas secas que aos poucos se transformam em blocos de pedras que outrora chamavam paralelepípedos. O lugar é belo e por esta razão a casa de dona Gabriela abriga uma escola de artes. Do lado de fora o sol de primavera brinca de imitar e pinta sua tela feita de sombras num suporte de clorofila

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A Orquídea Ariana






Notícia da Pedra do Reino, com seu Castelo enigmático, cheio de sentidos ...... E Gregorio Camaçari Quaderna, fotógrafo e Poeta, era Guarim de Lorena. ...

Quem diria que o Gregorio, fotógrafo, incorporaria o Personagem Guarim de Lorena, um dos cavaleiros de Carlos Magno que o grande Ariano Suassuna adaptou para os ares nordestinos de uma estoria de cavalaria?

Numa destas coincidencias em vida conheci o Ariano que neste último 16 de junho completou joviais 84 anos. Antes de fotografa-lo me apresentei dizendo que lhe diria meu nome. Ele olhou pra mim como quem diz: Hã, sei!!!! Quando falei ele deu uma risada receptiva e completou. Claro, O cavaleiro.
Vestido em linho branco com a delicadeza de uma orquídea que se eterniza flor uma vez ao ano, Ariano atendeu solicito ao pedido de centenas de autógrafos. Em cada livro que lhe retratava em fotos, uma lauda de dedicatória e um sorriso pontuando o texto. No final da noite sem demonstrar menor fadiga ou irritação, circulava menino, quase anônimo, se não fosse ele, O Suassuna. Interrompi seu passeio
pelo salão da Academia Brasileira de Letras e lhe pedi uma foto posada. Ele procurou aos lados e chamou delicadamente: Zelia, vem cá! Segurou sua esposa pela mão e como namorados novos se sentaram no sofá azul.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Doabstratoaofigurativoabstrato





Na busca pelo belo uma pessoa menos versada no campo das artes ou impedida de frequentar galerias e exposições se desilude ao deparar com uma pintura dita abstrata. Como pessoa do sub genero humano que sou me incluo nestes dois impedimentos. Felizmente minha primeira experiencia com a fotografia profissional foi como assistente de um grande fotógrafo de publicidade, João Bosco, que se dedicava com afinco ao registro de toda uma leva de artistas, na maioria vindos do Parque Lage, e que mais tarde atenderiam pelo nome de geração 80. Descobri em boa hora que era no abstrato que o artista podia preencher o espaço teoricamente vazio de uma tela com o que tinha de mais vigoroso: sua energia e personalidade.
Com o Bosco aprendi que a obra de arte fala por si só. Independe do entendimento de quem a vê. Ou se gosta ou não. Simples assim, sem muita explicação, sem aparatos teóricos que sustentem este gostar. O valor da trabalho portanto vai muito alem da assinatura embaixo ou atrás da tela. O que vale está no ato de ver e neste momento o expectador se torna um quase autor, com toda a força deste cliché.
Olhando pela janela do quarto de meu filho Cauê descobri não por acaso estas composições pintadas (na fotografia as vemos em duas dimensões) por um pé de xuxu que usa a folha da bananeira como tela, ou suporte, num linguajar mais chegado `as artes plásticas. A tela que a princípio se apresenta abstrata, executada com pinceladas livres, com o afastamento do olhar e a contemplação do todo se torna figurativa.
Mais tarde, ao conferir na tela do computador, pra minha surpresa, descubro um personagem importante que estava lá naquela "paisagem" primitivamente abstrata mas que só me foi apresentado quando olhei a composição revelada

quarta-feira, 20 de abril de 2011

125 de Velocidade e 5.6 de Abertura








Eu sou de "Mil Novecentos e Guaraná de Rolha". Pelo menos lembro de tirar com a unha a rolha colada na chapinha. Sou também do tempo em que o fotógrafo era "o especialista", o cara que olhando uma cena em determinada hora do dia sabia que com um filme TriX a foto sairia boa com 125 de velocidade e 5.6 de diafragma. Isso o distinguia dos demais seres vivos. Apertando-se hoje o botãozinho do celular o duende preso la dentro equaliza esta questão.
O tempo... o tempo devolveu ao "fotógrafo" sua única e verdadeira atribuição: Olhar.
O fotógrafo é aquele que olha o tempo todo. Olha a luz confinada no espaço equidistante de quatro ângulos retos.
Em São Paulo com um aparato feito pra falar mas que captura imagens com míseros 2.0 mp registrei estes pontos de vista que compartilho:
Por incrível que pareça eu acredito que São Paulo faz parte da América Latina. Lá tem um memorial com este nome e fica em Barra Funda. O buraco é mais em baixo.
No metrô a escultura do mineiro Alfredo Ceschiatti lhe empresta os olhos e observa com certa lascívia os "manos" que apressados por ela passam e a não observam. Não precisam, ela vai estar alí, no mesmo lugar amanhã.
O menino Kauã olha pela janela a paisagem. Ao lado a mãe que com sua irmãzinha no colo parece não ter motivos aparentes de contemplação. O pai ainda não traz na pele a irmãzinha, apenas segura a toalha da caçula.
A loira traz no corpo a público um pouco de sua intimidade. É possível que se chame Gich e seja o ponto comum entre Ana Maria, Paulo Luiz, Francisco e Anelize.
São Paulo parece relembrar o tempo todo. Os prédios são modernos e as esquinas antigas. Reminiscencias de quem tirou do bico do papagaio promessas de outros tempos.
Entre uma passada e outra este que passa mineiramente cabisbaixo encontra no chão a figura talvez divina de um Cristo idealizado ou de um Bin renegado e rasgado.
Por fim tudo são flores. Não fosse o desmentido de uma calçada em preto e branco, de alinhamento gráfico perfeito

sexta-feira, 11 de março de 2011

Belezas distintas









Meu esporte predileto, o único que consegui me sobressair foi jogar bola de gude. Jogava pelo fascínio das bolinha. A sociedade tal qual conhecemos preconiza a escolha do melhor em cada categoria. No território sagrado da música felizmente esta erva não floresceu. Cada instrumentista tem sua característica. Cito 3 dos grandes guitarristas de blues que figuram como referência do estilo seguido de exemplos no Iu Tubil
Jimi Hendrix e sua pegada visceral
http://www.youtube.com/watch?v=zlTkc3RicsM&feature=fvwrel
Duanne Allman que fazia da guitarra um violino psicodélico
http://www.youtube.com/watch?v=jfZdwCtrKWI&feature=related
E finalmente Roy Buchanan, o maior guitarrista desconhecido de todos os tempos. Nenhum músico chegou tão perto da alma do instrumento quanto ele
http://www.youtube.com/watch?v=swX9oq6TVAU&feature=related

Tal qual, os instrumentos por sua vez, tem belezas distintas e timbres únicos, impossível compara-los.

Quando se fala em guitarra nossos neurônios se mobilizam e criam em nosso inconsciente coletivo a imagem de uma Stratocaster. Ícone do design moderno, impávido desde sua criação é fruto da dobradinha de Leo Fender, George Fullerton e Freddie Tavares em 1954.

A idade não é implacável nesta passarela de belas. Quanto mais antiga melhor. Esta Kapa Continental tem exatamente a minha idade. A beleza do efeito craquelê no verniz da madeira é como marca de expressão. Sem botox conta a história de uma vida.

A guitarra acústica ricamente ornamentada com madreperolas, marfim e tartaruga vem dos fins de 1800. O que tem de ecologicamente incorreta o som a redime.

Um furo em forma estilizada de F diferencia esta Semi-acústica de timbres doces. A perfeição no corte deste buraco semelhante ao dos violoncelos é um item relevante na qualidade destes instrumentos. Perfeccionismo `a parte, ouvi-la é como uma massagem na alma.

Orgulho da indústria nacional no inicio da década de 80 esta Giannini modelo exportação de construção única leva na formula ingredientes nobres: mogno, imbuía, marfim e pau ferro.

Por fim a prova de que a vida após a morte pode ser bem bacana. Da primeira vez que a vi ela estava rachada por servir de tacape numa briga entre irmãos trazia algumas penas de galinha, lembrança de uma estada demorada num galinheiro. Hoje tem valor inestimável. Garbosa ostenta a assinatura de duas lendas vivas: John Mayall, o Inglês que redescobriu o Blues batendo as primeiras estacas do roqueirol e de Johnny Winter, o albino nervoso que reinventou o Blues elétrico.