terça-feira, 16 de setembro de 2014

No embornal de pano












Na vida alguns trabalhos passam e outros ficam incorporados ao corpo. Como nutrientes de um alimento entram na corrente sangüinea e quando percebemos tornam-se parte do que somos. Digo que alguns trabalhos nos dão sangue.
A encomenda me veio de Marquinho, um fraterno amigo.  Como se fosse um favor me contratou, convidando para passar uma tarde nesta versão 2014 da Rio Oil & Gas Expo and Conference. O trabalho seria somar com a equipe de fotografos contratada para cobrir o evento mas de uma forma solta, sem agenda e horário. A idéia foi deixar o olhar livre para ver o que lhe aprouvesse. Perceber os brilhos das máquinas; de longe participar das conversas comerciais em andamento; registrar os movimentos e imobilizar a tarde frenética de  negócios e intenções.
Como bom mineiro que volta da roça num final de tarde, com um abraço "descarreguei" as imagens que trazia no meu embornal de pano.
E a noite desceu feliz

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Considerações sobre um pião






Quando pensamos que a vida para é porquê ela pode, quem sabe, em seu suposto estagnar, proporcionar abrigo e propiciar a vida.
Em sua inércia, o pião esquecido na prateleira suportou o ninho de um marimbondo. Foi o tempo exato que ele precisava para fazer um abrigo, procriar, secar as asas dos seus e voar. O não movimento deu vida a quem precisa voar.
O movimento é contínuo, e a vida se faz movimento. Por vezes, a imaturidade da arrogância, do pouco viver, do pouco se conhecer, pelo pouco que se tem rodado, nos brinda com a ilusão do sucesso de um movimento perfeito. De repente se descobre que o Rei está nu e ninguém te avisou que o seu rodar que parecia tão interessante subverteu regras básicas e aquela forma criativa de rodar está como dizem nossos vizinhos paulista, de ponta-cabeça.
Quando bem pequeno sonhava um dia poder rodar o pião como os irmãos mais velhos dos meus pequenos amigos. A força do braço adulto era tamanha que o brinquedo fazia um...
ZUuum ... naquele zunido quase budista eu viajava no desejo de crescer rápido e conseguir tal façanha, de deixar o pião rodando tanto que em segundos parecia não rodar. Ficava paradinho, como se movimento não tivesse. O ápice da vida é o movimento constante e tão rápido que ilude os sentidos com som e movimento extremos. A beleza da velocidade que resulta numa ilusória imobilidade.
Nos momentos de repouso notamos, piões que somos, que as várias quedas  e as frustração de tentativas que não resultaram no rodar esperado nos deixam marcas tantas. Tantas marcas que chegamos a feliz constatação que o mais bonito de tudo são mesmo estas máculas colecionadas. Nada mais feio que um pião novo, imaculado. Chego enfim a pensar que o mais interessante de tudo é o movimento errático que sucede prumo, quando se está a 45 graus. É aí que o pião se mostra mais engraçado e a brincadeira da vida tem seu ápice na graça.
A terra roda em prumo sempre. A vida não. A vida  é como um pião com seus prumos e movimentos que precedem a queda que imagina o enrolar da fieira no pião e o sonho de um novo prumo que precede a graça dos movimentos erráticos dos 45 graus que precedem o enrolar novamente da fieira...

sábado, 30 de novembro de 2013

O que vale a pena









O telefone tocou pro Manoel
E o Manoel saiu armado
E foi pra Niterói
Mas na viagem ele refletiu
Na consciência nada me dói
Não sou Manoel, não sou casado
Eu sou é Joaquim
O que é que eu vou fazer em Niterói.
                                                          Wilson Baptista 1946


Equilibrei o peso da câmera com uma lente longa e parei pra pensar e rir dos versos do centenário e sensacional Wilson Baptista. Não fosse o casal Rodrigo Alzuguir e Claudia Ventura que tinha ao alcance de um click como sabê-lo. Os artistas em cena traziam aos presentes um passado valioso que, se não fosse por esse resgate heróico, estaria confinado ao fundo de uma gaveta. Dividindo o palco naquela noite alguns convidados e amigos comungavam daquela mesma hóstia que passava de boca em boca de uma platéia que, boquiaberta, os assistia. 
Se um dia me perguntarem na vida o que valeu a pena talvez eu mostre um registro de show. 
O que vale a pena é o que mais gosto e o que mais gosto é estar naquele templo, naquela hora em que o artista se dá em memória de nós. 

terça-feira, 27 de agosto de 2013

O seu olhar







Se existe uma forma magica de falar sem dizer nada, a fotografia aí se revela. Nada que não tenha sido dito antes, nada mais lugar comum que uma foto do nascer do sol. Revelador é a imagem revelada mostrar que la no fundo tem um gigante que, apesar do avançar das horas, ainda cochila. Ao por do sol a luz é a mesma de todas as tardes mas as ondas concêntricas que o pássaro desenha no espelho de água nunca é o mesmo.
Se na paisagem a imagem se assemelha ao quadro pintado, no retrato a fotografia fala mais alto que qualquer outra forma de registro. A folha da bananeira seca e o fogo faz sua parte mas o grilo ficará talvez para a posteridade. Assim como a lua de cheia já se minguou em nova um pouco depois de emprestar sua luz `a plantinha silhuetada.
Se a fotografia te restringe o acesso em determinados ambientes, em outros te dá passe livre. Passe livre para estar junto `a música que te apaixona no instante absoluto de uma "blue note", de um sentimento forte, de um sentimento blues. O acesso permitido ou não pode ser até consentido sem ser declarado ou negado declaradamente. Nunca vou saber no que pensava o Palhaço Carequinha que olhava ao longe, sério, sem ouvir o pedido mágico que precede a pose e que muda tudo: sorria!
Se a fotografia tem um valor, seu valor reside em apenas e não mais que isso, postergar um momento feliz. Registrar um carinho em forma de carrinho, cheio de delicado dentro. Presente que dei ao primo amigo mas que não consegui me desapegar a ponto de não vê-lo mais. Fica para nosotros o registro das cores, do brilho, da forma e da luz que batia. Assim como ficou para o Coronel Aureliano Buendia a recordação daquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o o gelo. 
Sem definição que a valha, a fotografia serve apenas e não mais que isso, para provar a existência de um vento que passeia pelo jardim e transita entre as pétalas, que brinca com o mato e com a grama indistintamente e que transforma o dente-de-leão em brincadeira que voa e encanta seu olhar. No momento seguinte registra na sua boca o sorriso.






quinta-feira, 11 de julho de 2013

Paraty e para mim








Artigo 12
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com imensa begonia na lapéla; parágrafo único, só uma coisa fica proibida, amar sem amor;  Thiago de Mello - O Estatudo do Homem

Quando o grande poeta Thiago pôs no papel estas leis eu ainda não tinha um ano de idade. Semana passada me encontrei com ele para registrar o momento em que se encontrou com Gilberto Gil. Disse-lhe que na minha adolescência suas letras subversivas dividiram comigo o quarto. Feliz, o poeta me beijou a testa.
Das muitas alegrias que tive cobrindo a FLIP na Casa SESC, nada me chamou mais a atenção que aquela luz de inverno. A excitante Paraty fica toda molhada com a chegada da FLIP e vive naqueles dias seu período mais fecundo, de encontros eternos que duram a intensidade daquela semana. 
Li pouco dos muitos livros que vi por la. Se não pude vê-los, li pessoas de fotogenia impar com  sorrisos amigos como os de Thiago e Gil. 
Se o sol ilumina aquela cidade como um grande cenário, nos palcos belezas de luz própria se iluminam. De dia a cantora lírica Manuelai Camargo cantou com delicadeza felina. De noite o sol veio abaixo reverenciar seus nordestinos bem nascidos. Com toda sua juventude, Antonio Marinho declarou seu amor eterno aos também jovens emboladores Cachimbinho e Geraldo Mousinho que rimam até no nome e juntos estão faz mais de 60 anos: "todos os chapéus que eu tiver eu tirarei para vocês". A noite quase já se ia e o dia já quase amanhecia azul. 

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Honra ao Mérito








E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa...
Se um dia a previsão do Chico Buarque se concretizar estes exploradores submarinos descobrirão que na biblioteca da Escola SESC de Ensino Médio a mobilia foi trocada de lugar.

Por sugestão do "nosso fotógrafo", trocamos tudo de lugar. Na palestra de hoje, Claudia Fadel, a diretora da escola, quebrou o protocolo e abriu assim a apresentação de Brian Perkins, diretor do programa de liderança de educação urbana na Universidade de Columbia - EUA, cujas imagens ilustram este espaço. 
Nestes tempos bicudos em que nossa capacidade e proficiência são questionados por olhares e saberes equivocados, alguns trabalhos nos servem ao portfólio. Porém, o carinho reconhecido de certos clientes nos vem ao peito como uma medalha de honra ao mérito, daquelas que se ganha em tão tenra idade que a simples lembrança do brilho daquele dourado nos remeterá quando maduros a uma alegria verdadeira que com candura guardamos em um bom lugar, no espaço que costumamos chamar de nós mesmos. 


terça-feira, 26 de março de 2013

Show de bola






Dos textos técnicos que li em priscas eras o que mais me chamou atenção foi sobre a crônica esportiva dos jornais numa era pré televisiva. O jornalista esportivo, digo, futebolístico, relatava com precisão de detalhes os lances, as faltas e o caminho percorrido pela bola até chegar ao gol. Seus olhos eram como câmeras da TV,  num tempo em que ainda não se sonhava com o acesso das massas a este eletrodoméstico.
Se dizem que o fotojornalismo se aprende em jornal, minha passagem por esta mídia me valeu a oportunidade de entrar em campo. De futebol entendo que são dois times e uma bola, nunca tive maiores afinidades com o esporte, porém fotografa-lo é uma tarefa gratificante em imagens. Falando tecnicamente, se trabalha com velocidades altas, foco crítico e motor drive ligado todo o tempo. A imagem que se capta é sempre uma surpresa pois a foto esportiva é a comprovação do paradoxo da fotografia. No exato instante em que se aperta o disparador o espelho que reflete a imagem que entra pela lente e chega aos olhos é suspenso para que o sensor (antes era o filme) registre a cena. Digo assim que o fotógrafo nunca tem certeza de que o que ele viu foi o que conseguiu registrar.
Estes dias fotografei um campeonato de amadores que vestem o uniforme e a adrenalina os faz semelhantes aos seus deuses. São pessoas simples, que exercem seus oficios diários como um passa-tempo entre uma pelada e outra nos fins de semana de vida. Nas quatro linhas travam batalhas medievais e a bola, prêmio  aos mais fortes,  é almejada como o coração da princesa. Atores num teatro de arena fazem caras de sofrimento e bocas de bravura. Na intimidade do mano a mano voam e bailarinam dribles com a brutalidade de machos em guerra na doçura de um "pas de deux". Na tensão da zona do agrião, onde o capim não cresce, alheio ao espetáculo que segue,  o goleiro acompanha rabo de olho a bola que não deveria passa de uma linha. No final a gloria ao vencedor, o sorriso eterno e  a certeza que aquelas pessoas que se vestem igual serão sempre os melhores e inseparáveis amigos enquanto durar a lembrança de um lance que se desfecha em gol.