quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Blue Highway





Algumas imagens são raras. Não falo aqui daqueles eventos politicamente incorrectos que se referem ao féretro de pessoas de baixa estatura. O que apresento a este respeitável público diz respeito a vida nascendo nos primeiríssimos raios de sol de verão. Antes de virar som as cigarras ainda em formato de besourão esperam seu momento enterradas por até 17 anos. Saem, se agarram ao caule de uma árvore e assumem o formato que conhecemos deixando pra trás uma casca intacta, transparente e dourada.

Nas folhas de maracujás o banquete das formigas é uma lagarta que jaz estendida na folha do maracujá que lhe fora banquete.

No bem me quer, mal me quer do tempo a última pétala fica como testemunho dos tempos pixiguinianos quando era divina e graciosa.

Impávido o bastão do imperador dispensa o senhor com título e nobreza que lhe dá nome. Como um peixe-leão no fundo do mar, no jardim o bastão reina.

Nem aí para as minhas conjecturas biológicas uma joaninha disfarçada de fusquinha reluzente passa em altíssima velocidade zunindo numa autoestrada azul feita de varal de secar roupas

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Por acaso








As primeiras coisas que um foca aprende quando começa trabalhar em jornal é que régua de picas (pronuncia-se paicas) não é nome feio e servia para medir o tamanho do texto numa era pré Page Maker. Aprende logo também que as melhores fotos e matérias nunca são encomendadas, simplesmente acontecem no caminho da pauta principal sugerida pelo editor.
Fruto do acaso ou de um olhar mais atento ao derredor a fotografia vem aos olhos e acontece de repente. Na seqüencia seguem 3 exemplos
Cobrindo um torneio de futebol eu já estava manobrando o carro e no canto da pista numa área que antes era um alagadiço a garça encharcada convida um peixe pra sair da chuva.
A última vez que andei na moda foi quando cheguei na escola com uma calça cukier de presponto branco mas como o jornalista é um especialista em variedades cobri a última edição do Fashion Rio. Registrei no Parque Lage, `a luz do dia uma modelo realmente bonita e quase sem maquiagem. Voltando pro PIT (nunca tive a curiosidade de saber porque o cercadinho onde ficam os fotógrafos de moda tem este nome) olhei pra cima e vi estas palmeiras pelo toldo plástico. No Cais Mauá onde aconteciam os desfiles dava pra ver um arco-iris que no fim de tarde usava a ponte Rio Niteroi de passarela.
Uma das flores que acho mais bonita é uma bromelinha do tipo Tillandsias que se agarra aos troncos de mangueira, principalmente e florescem uma única vez. Registrando uma delas me dei conta de que bem ao meu lado uma aranha usava todo seu colorido e atraia a atenção de pequenas presas voadoras que por acaso por ali voavam.

Informação relevante:
Não por acaso, mas por atenção e elegancia da fonte. Roberto Menescal, o grande músico da Bossa Nova e autoridade no assunto bromelístico, pois é virtuoso também como criador destas belezas, ornamenta esta postagem com uma informação complementar. O nome correto da bromelinha é Tillandsia Stricta. Brasileirissima, poderia ser tema de música pois ela é carioca.
Que este ano nos traga alegrias perenes e que o acaso nos chegue com notícias sempre alvissareiras.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Parceria profícua





Um velho amigo sempre dizia: "tem trabalho que dá sangue". A gente trabalhava em um jornal popular famoso na época pelo que dizia e mais ainda pelo que diziam dele: "se espremer sai sangue". Tempos depois, fazendo meu primeiro relatório anual de atividades da Cruzada do Menor fui entender na plenitude a frase. O dar sangue tinha a ver com algo que iria além do pagamento de honorários. Tem trabalho que redime.
Recebi em forma de depoimento um perfil no site da Cruzada. A matéria fala de uma parceria mútua e profícua, do respeito e admiração do doar carinho e receber um sorriso.
Abaixo o link da página da Cruzada do Menor. Acima algumas imagens verdadeiras, sem produção, sem montagem, sem maquiagem ou fotochope de realidade
http://www.cruzadadomenor.org.br/web/pt/acontece/historia/2010/2010historia09.htm

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O importante é que emoções eu vivi





Numa dimensão cósmica, faz muito pouco tempo, fotografei o show que reabriu o Canecão. No palco a prova que o cliché "lenda viva" seria a melhor expressão para dizer alguma coisa sobre o astro sentado ali no palco bem ao alcance de olhos que brilhavam. O albino Johnny Winter, branquissimo blues man, formou com Jimi Hendrix, Duanne Allman e Eric Clapton nos finzinhos dos 60 o quarteto fantástico da guitarra de blues. Naquele momento histórico a lagarta do blues se transformava abruptamente em borboleta do Roqueirol. Johnny Winter é a síntese da música que não é mais uma coisa nem outra mas ambas ao mesmo tempo.
No visor da câmera o ídolo, na lembrança um pensamento que compartilho sempre com o Amigo na plateia, Claudio Lousada, que em boa hora me iniciou nos ritmos sessentistas: "quando vivemos um momento iluminado e temos consciência disso, este lapso de tempo especial o é ainda mais pois não precisamos lá na frente olhar em retrospecto para sabe-lo". Ou seja: quem diz que era feliz e não sabia não mereceu ter sido.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Meus amigos quando me dão



Recente soube do falecimento repentinamente inesperado da mãe de uma amiga antiga. Pessoa de riso fácil, de lidar tranqüilo, daquelas que em sua companhia nos perguntamos: por que não? Pra mim um dos mistérios da vida é nunca sabermos a última vez que encontramos uma pessoa. Estes três retratos registram três derradeiros encontros.
O Dr Barbosa Lima Sobrinho foi o símbolo da longevidade na imprensa. Presidente eterno da ABI, era menino ainda e trazia alguns biscoitos no bolso quando fiz esta dele brincando na cozinha de casa com seu cachorrinho.
Antes de fazer este retrato do Burle Marx perguntei-lhe onde ele se sentia melhor em seu sítio. Entre coleções de orquídeas me disse que em qualquer canto tava bom pois estava em casa.
Talvez o retrato que me deixou mais feliz tenha sido o daquele que fez sorrir a minha e as gerações anteriores. Roubei-lhe este instantâneo. O palhaço Carequinha antes de entrar em cena numa Lona Cultural em Santa Cruz, subúrbio do Rio, tinha um olhar distante como nós mortais pensando em nossas contas. No que pensaria nosso herói naquele momento iluminado, me pergunto sempre que vejo esta foto.
O encontro enquanto dura é uma fonte inesgotável de emoção. Numa destas saídas inusitadas de jornal cheguei a casa do cavaleiro da esperança, Luiz Carlos Prestes, que também atendia pela alcunha de O Velho. Quando me recebeu, muito sorridente me cumprimentou. Eu lhe disse que estava muito feliz e emocionado pois estava apertando a mão da história. Saindo dali pensei num poema que se tivesse lembrado antes lhe recitaria agradecendo o cumprimento

Meus amigos quando me dão a mão
Sempre deixam outra coisa
Presença
Olhar
Lembrança
Calor
Meus amigos quando me dão a mão
Deixam na minha a sua mão!
 
Paulo Leminski

terça-feira, 4 de maio de 2010

Ação entre amigos





Convidado pelo próprio tive o inenarrável prazer de fotografar um ídolo. A história se reinventa e Ricardo Werther, que é de longe, muito longe, a melhor voz do blues em terras tropicais lança seu primeiro trabalho solo. Turning Point é o título do disco resultado de seis meses de pesquisa do bom repertório que sai pela gravadora Delira Música. A versão de "Down by the river" é de fazer o Neil Yong sorrir. Com duas baterias no palco e a presença luxuosa de Otávio Rocha (Blues Etílicos) empunhando no melhor estilo Roqueirol uma guitarra de florzinha rosa o amigo Werther incendiou Botafogo nesta última quarta feira de lua cheia.

Aos namorados, maridos e amantes do bom Blues vale um click
http://www.deliramusica.com/produtos/produtos_descricao.asp?lang=pt_BR&codigo_produto=210

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Considerações psicodélicas






Como toda bela mulher, as flores usam de sutilezas para garantir a preservação da espécie. A Helicônia Bihai deixa a semente muito azul aparente. Lembra muito um verme alienígena. Atrai pássaros que se dão conta da peça que a flor lhe prega alguns metros longe delas. solta ali mesmo a semente e no chão ela germina. Muito puto, um passarinho destes só de birra voou muito, atravessou uns oceanos e a flor germinou. Devido ao desgaste da longa viagem, sem muita força, não resistiu muito tempo. Durou o suficiente pra se mostrar linda e hoje é a flor tropical mais exportada. Porém, a mais linda de todas é a flor do maracujá. Tramita no congresso em regime de urgência uma proposta de mudança de lay-out da bandeira nacional. Achar o pavilhão nacional "muito lindo" é um exercício de patriotismo. O novo símbolo nacional será a flor do maracujá. A nação já respira estes ares de renovação que, assim como os raios solares são filtrados pela folha do cará moela, ou cará do ar como também é conhecido. Na bela definição de um site especializado o cará moela é "um cipozinho delicado, em cujos ramos desenvolvem-se os tubérculos". Os hippies comiam no desjejum estes carás e respiravam o ar filtrado em suas folhas. Porém, de súbito, o movimento desapareceu, banido por ventos fortes que anunciavam a caretização das mentes e por conseguinte o fim dos anos 60. Na verdade o que aconteceu foi uma decepção coletiva vinda do firmamento. A estrela que fazia companhia a lua não estava mais lá. Nada justificaria os anéis de lua e estrela, era o fim de tudo. Hoje pela manhã antes de sair pro trabalho fotografei uma flor e, para meu espanto e contentamento, a estrela estava lá, escondida bem no fundo dela. The flower power