quinta-feira, 10 de setembro de 2015
Um Peixe
Daquelas oportunidades únicas, por um motivo profissional, um registro factual, tive a oportunidade de transitar pelos espaços externos, galerias e salões deste monumento cinza batizado inicialmente "Cidade da Música" e que hoje atende pelo nome de "Cidade das Artes". A construção foi um emaranhado abstrato de vergalhões que suscitava dúvidas aos que por ali passavam e aos poucos deu sustentação `as idéias e viagens estéticas concebidas por seus arquitetos. Uma intervenção urbana brusca que divide opiniões acerca de sua beleza.
Se do lado de fora dúvidas existem, quando se entra elas dão lugar a certezas tão sólidas quanto suas monumentais paredes de cimento puro, aquele é o domínio de uma escala de cinzas. Se vai do preto profundo ao branco espectral numa rápida passada de olhos naquela paisagem. Talvez se cor ali tivesse, quem por ali caminha sentiria as mesmas sensações que Jonas teve no ventre da baleia e seriam necessários três dias e três noites para compreender as retas e curvas idéias dos que primeiro pensaram aquele peixe.
domingo, 2 de novembro de 2014
Sobre aguas
Indiferente a questões econômicas, culturais ou socioambientais a bromelia só precisa de um pingo d`agua para desejar bom dia
"Brigam Espanha e Holanda pelos direitos do mar
O mar é das gaivotas que nele sabem voar"
domingo, 19 de outubro de 2014
A traça não pode com a Alfazema
Em 1992 eu estava felizmente aboletado na equipe que cobria a Eco 92. Vinte anos depois subia nas pedras do forte de Copacabana uma estrutura entitulada Humanidades 2012. Em suas 10 salas temáticas a idéia era provocar uma reflexão sobre sustentabilidade. Algumas luas depois a Exposição rendeu um filme e a noite de apresentação da fita foi brindada com uma leitura de textos e músicas na voz de Maria Bethânia. Vinte e dois anos depois eu estava novamente lá e feliz.
Quando penso em realização no que faço o que me vem em mente é fotografar um show. É fotografando o som que consigo vislumbrar a melhor luz. Nestes anos de profissão consegui registrar alguns momentos musicais e sempre me disse que enquadrar Maria Bethânia seria onde melhor estaria quando la chegasse.
Lá estando constatei o que sempre imaginara. Vê-la no palco é mais que ouvir uma música que alguém canta. Sem medo do lugar comum digo que o que se sente no palco é uma energia que emana de uma pessoa que se doa como numa oferenda. Maria Bethânia é portadora de uma mensagem que vem de milênios. Defende suas crenças como um velho chefe índio. Seu cantar é como um mantra, seu sorriso cura como uma pajelança.
Ver a luz de Bethânia me vem como um alento e me mostra que o clamor pela liberdade muito mais e além de uma figura de linguagem piegas é possível.
Nesta nossa tênue democracia latino americana a voz de Maria me traz `a mente uma lei de 69 em forma de poesia que diz em seu primeiro paragrafo:
Todos são iguais perante a lei, sem distinção de sexo, raça, trabalho, credo religioso e convicções políticas
Maria Bethânia, sacerdotisa descalça antes de se despedir toca com as mãos o palco como reverência a um território sagrado e me sussura com sua voz calma um alento que diz "a traça não pode com a alfazema".
terça-feira, 16 de setembro de 2014
No embornal de pano
Na vida alguns trabalhos passam e outros ficam incorporados ao corpo. Como nutrientes de um alimento entram na corrente sangüinea e quando percebemos tornam-se parte do que somos. Digo que alguns trabalhos nos dão sangue.
A encomenda me veio de Marquinho, um fraterno amigo. Como se fosse um favor me contratou, convidando para passar uma tarde nesta versão 2014 da Rio Oil & Gas Expo and Conference. O trabalho seria somar com a equipe de fotografos contratada para cobrir o evento mas de uma forma solta, sem agenda e horário. A idéia foi deixar o olhar livre para ver o que lhe aprouvesse. Perceber os brilhos das máquinas; de longe participar das conversas comerciais em andamento; registrar os movimentos e imobilizar a tarde frenética de negócios e intenções.
Como bom mineiro que volta da roça num final de tarde, com um abraço "descarreguei" as imagens que trazia no meu embornal de pano.
E a noite desceu feliz
segunda-feira, 19 de maio de 2014
Considerações sobre um pião
Quando pensamos que a vida para é porquê ela pode, quem sabe, em seu suposto estagnar, proporcionar abrigo e propiciar a vida.
Em sua inércia, o pião esquecido na prateleira suportou o ninho de um marimbondo. Foi o tempo exato que ele precisava para fazer um abrigo, procriar, secar as asas dos seus e voar. O não movimento deu vida a quem precisa voar.
O movimento é contínuo, e a vida se faz movimento. Por vezes, a imaturidade da arrogância, do pouco viver, do pouco se conhecer, pelo pouco que se tem rodado, nos brinda com a ilusão do sucesso de um movimento perfeito. De repente se descobre que o Rei está nu e ninguém te avisou que o seu rodar que parecia tão interessante subverteu regras básicas e aquela forma criativa de rodar está como dizem nossos vizinhos paulista, de ponta-cabeça.
Quando bem pequeno sonhava um dia poder rodar o pião como os irmãos mais velhos dos meus pequenos amigos. A força do braço adulto era tamanha que o brinquedo fazia um...
ZUuum ... naquele zunido quase budista eu viajava no desejo de crescer rápido e conseguir tal façanha, de deixar o pião rodando tanto que em segundos parecia não rodar. Ficava paradinho, como se movimento não tivesse. O ápice da vida é o movimento constante e tão rápido que ilude os sentidos com som e movimento extremos. A beleza da velocidade que resulta numa ilusória imobilidade.
Nos momentos de repouso notamos, piões que somos, que as várias quedas e as frustração de tentativas que não resultaram no rodar esperado nos deixam marcas tantas. Tantas marcas que chegamos a feliz constatação que o mais bonito de tudo são mesmo estas máculas colecionadas. Nada mais feio que um pião novo, imaculado. Chego enfim a pensar que o mais interessante de tudo é o movimento errático que sucede prumo, quando se está a 45 graus. É aí que o pião se mostra mais engraçado e a brincadeira da vida tem seu ápice na graça.
A terra roda em prumo sempre. A vida não. A vida é como um pião com seus prumos e movimentos que precedem a queda que imagina o enrolar da fieira no pião e o sonho de um novo prumo que precede a graça dos movimentos erráticos dos 45 graus que precedem o enrolar novamente da fieira...
sábado, 30 de novembro de 2013
O que vale a pena
O telefone tocou pro Manoel
E o Manoel saiu armado
E foi pra Niterói
Mas na viagem ele refletiu
Na consciência nada me dói
Não sou Manoel, não sou casado
Eu sou é Joaquim
O que é que eu vou fazer em
Niterói.
Wilson Baptista 1946
Equilibrei o peso da câmera
com uma lente longa e parei pra pensar e rir dos versos do centenário e
sensacional Wilson Baptista. Não fosse o casal Rodrigo Alzuguir e Claudia
Ventura que tinha ao alcance de um click como sabê-lo. Os artistas em cena
traziam aos presentes um passado valioso que, se não fosse por esse resgate
heróico, estaria confinado ao fundo de uma gaveta. Dividindo o palco naquela
noite alguns convidados e amigos comungavam daquela mesma hóstia que passava de
boca em boca de uma platéia que, boquiaberta, os assistia.
Se um dia me perguntarem na
vida o que valeu a pena talvez eu mostre um registro de show.
O que vale a pena
é o que mais gosto e o que mais gosto é estar naquele templo, naquela hora em
que o artista se dá em memória de nós.
terça-feira, 27 de agosto de 2013
O seu olhar
Se existe uma forma magica de falar sem dizer nada, a fotografia aí se revela. Nada que não tenha sido dito antes, nada mais lugar comum que uma foto do nascer do sol. Revelador é a imagem revelada mostrar que la no fundo tem um gigante que, apesar do avançar das horas, ainda cochila. Ao por do sol a luz é a mesma de todas as tardes mas as ondas concêntricas que o pássaro desenha no espelho de água nunca é o mesmo.
Se na paisagem a imagem se assemelha ao quadro pintado, no retrato a fotografia fala mais alto que qualquer outra forma de registro. A folha da bananeira seca e o fogo faz sua parte mas o grilo ficará talvez para a posteridade. Assim como a lua de cheia já se minguou em nova um pouco depois de emprestar sua luz `a plantinha silhuetada.
Se a fotografia te restringe o acesso em determinados ambientes, em outros te dá passe livre. Passe livre para estar junto `a música que te apaixona no instante absoluto de uma "blue note", de um sentimento forte, de um sentimento blues. O acesso permitido ou não pode ser até consentido sem ser declarado ou negado declaradamente. Nunca vou saber no que pensava o Palhaço Carequinha que olhava ao longe, sério, sem ouvir o pedido mágico que precede a pose e que muda tudo: sorria!
Se a fotografia tem um valor, seu valor reside em apenas e não mais que isso, postergar um momento feliz. Registrar um carinho em forma de carrinho, cheio de delicado dentro. Presente que dei ao primo amigo mas que não consegui me desapegar a ponto de não vê-lo mais. Fica para nosotros o registro das cores, do brilho, da forma e da luz que batia. Assim como ficou para o Coronel Aureliano Buendia a recordação daquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o o gelo.
Sem definição que a valha, a fotografia serve apenas e não mais que isso, para provar a existência de um vento que passeia pelo jardim e transita entre as pétalas, que brinca com o mato e com a grama indistintamente e que transforma o dente-de-leão em brincadeira que voa e encanta seu olhar. No momento seguinte registra na sua boca o sorriso.
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