sábado, 5 de novembro de 2016

Sobre vida e bicicletas








A resposta que vale um milhão de dólares é:  Como será a vida após a morte?

Uma bicicleta abandonada no tempo, `a sorte de uma evolução rápida ou mais lenta da corrosão. Em seus 54 anos de idade e trabalho serviu de passeio, lazer e labuta. Finalmente abandonada. Seu próximo destino seria um forno, e,  metamorfoseando-se talvez em vergalhão ou prego, teria enfim outras serventias.  Mas, como diz a piada, a vida é uma caixinha de surpresas.
Um objeto antigo pode ser restaurado mantendo radicalmente a originalidade. Outra possibilidade contrastante é se preservar o que tem ainda de fábrica como patrimônio,  porém, acrescentando-lhe itens inusitados. A segunda opção tem compromisso apenas com a beleza, uma releitura estética.
No desdobramento da vida a bicicleta em sua espartana existência deixa de ser um objeto funcional e se torna quase uma abstração conceitual.
De Lorena Bicicletas


sábado, 4 de junho de 2016

Imagens que passam e ficam








Alguns trabalhos nos são muito caros. Outros não tem preço. Seja pela oportunidade, pelo significado pelo estado de espírito ou o carinho que os motivou.
Estas coberturas fotográficas reúnem uma quantidade significativa de imagens. Enquadramentos emolduram fatos, pessoas, grupos e contam a estória do evento retratado.
No bojo desta seleção algumas imagens  são cuidadosamente escolhidas levando em conta critérios relevantes. no meio delas, algumas preciosidades permeiam e esquecidas.  Ficam apenas como um registro digital, perdidas no anonimato binário de um dispositivo de armazenagem.
O olhar de absoluta confiança da criança brilha por mirar o rosto do pai;
o azulejo aos poucos vira musgo;
o ladrilho hidráulico, calado, lembra mas não revela quantos por ali passaram;
a cruz no túmulo de um negro escravizado suporta tantos e tantos pedidos;
flores velhas transmutam suas belezas;
com tanta estrada rodada, um caminhão acredita que os sonhos não envelhecem;
a fechadura que tudo tranca faz concessão `a luz que vem de fora.
Enquanto isso, atento apenas ao fato de estarem de mãos dadas um casal eterniza o momento e caminha

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

O maior poema da lingua portuquesa






Um dia desses, mais um dia daqueles bonitos. Num Aterro do Flamengo nem muito quente nem frio, encontro um amigo poeta. Destes que tem poesia também no nome, Sergio Gramático. Neste encontro tendo a pedra mais fotogênica da cidade ao fundo, meu bonito amigo Sergio convidou os amigos para testemunharem seu feito. Ousou desbancar Luiz de Camões e numa inspiração escreveu 1km e meio de poesia  e em redondilha maior contou em 9700 versos a "Historia da Cidade Maravilhosa".
Eu estava lá e compartilhei com os amigos, que lhe tem tão bem, o momento que o sonho acontece. Quando os velhos param para olhar e as crianças buscam pedras e botam peso pro vento não rasgar aquela historia comprida.  Para mostrar a gratidão por terem sido lembrados, naquele momento os que ali estavam retribuiram em forma de versos improvisadamente decorados uma homenagem em alegria recitada. O dia findou feliz

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Um Peixe






Daquelas oportunidades únicas, por um motivo profissional, um registro factual, tive a oportunidade de transitar pelos espaços externos, galerias e salões deste monumento cinza batizado inicialmente "Cidade da Música" e que hoje atende pelo nome de "Cidade das Artes". A construção foi um emaranhado abstrato de vergalhões que suscitava dúvidas aos que por ali passavam e aos poucos deu sustentação `as idéias e viagens estéticas concebidas por seus arquitetos. Uma intervenção urbana brusca que divide opiniões acerca de sua beleza.
Se do lado de fora dúvidas existem, quando se entra elas dão lugar a certezas tão sólidas quanto suas monumentais paredes de cimento puro, aquele é o domínio de uma escala de cinzas. Se vai do preto profundo ao branco espectral numa rápida passada de olhos naquela paisagem. Talvez se cor ali tivesse, quem por ali caminha sentiria as mesmas sensações que Jonas teve no ventre da baleia e seriam necessários três dias e três noites para compreender as retas e curvas idéias dos que primeiro pensaram aquele peixe.

domingo, 2 de novembro de 2014

Sobre aguas






Indiferente a questões econômicas, culturais ou socioambientais a bromelia só precisa de um pingo d`agua para desejar bom dia

"Brigam Espanha e Holanda pelos direitos do mar
O mar é das gaivotas que nele sabem voar"



domingo, 19 de outubro de 2014

A traça não pode com a Alfazema







Em 1992 eu estava felizmente aboletado na equipe que cobria a Eco 92. Vinte anos depois subia nas pedras do forte de Copacabana uma estrutura entitulada Humanidades 2012. Em suas 10 salas temáticas a idéia era provocar uma reflexão sobre sustentabilidade. Algumas luas depois a Exposição rendeu um filme e a noite de apresentação da fita foi brindada com uma leitura de textos e músicas na voz de Maria Bethânia. Vinte e dois anos depois eu estava novamente lá e feliz.
Quando penso em realização no que faço o que me vem em mente é fotografar um show. É fotografando o som que consigo vislumbrar a melhor luz. Nestes anos de profissão consegui registrar alguns momentos musicais e sempre me disse que enquadrar Maria Bethânia seria onde melhor estaria quando la chegasse.
Lá estando constatei o que sempre imaginara. Vê-la no palco é mais que ouvir uma música que alguém canta. Sem medo do lugar comum digo que o que se sente no palco é uma energia que emana de uma pessoa que se doa como numa oferenda. Maria Bethânia é portadora de uma mensagem que vem de milênios. Defende suas crenças como um velho chefe índio. Seu cantar é como um mantra, seu sorriso cura como uma pajelança.
Ver a luz de Bethânia me vem como um alento e me mostra que o clamor pela liberdade muito mais e além de uma figura de linguagem piegas é possível.
Nesta nossa tênue democracia latino americana a voz de Maria me traz `a mente uma lei de 69 em forma de poesia que diz em seu primeiro paragrafo:
Todos são iguais perante a lei, sem distinção de sexo, raça, trabalho, credo religioso e convicções políticas
Maria Bethânia, sacerdotisa descalça antes de se despedir toca com as mãos o palco como reverência a um território sagrado e me sussura com sua voz calma um alento que diz "a traça não pode com a alfazema".

terça-feira, 16 de setembro de 2014

No embornal de pano












Na vida alguns trabalhos passam e outros ficam incorporados ao corpo. Como nutrientes de um alimento entram na corrente sangüinea e quando percebemos tornam-se parte do que somos. Digo que alguns trabalhos nos dão sangue.
A encomenda me veio de Marquinho, um fraterno amigo.  Como se fosse um favor me contratou, convidando para passar uma tarde nesta versão 2014 da Rio Oil & Gas Expo and Conference. O trabalho seria somar com a equipe de fotografos contratada para cobrir o evento mas de uma forma solta, sem agenda e horário. A idéia foi deixar o olhar livre para ver o que lhe aprouvesse. Perceber os brilhos das máquinas; de longe participar das conversas comerciais em andamento; registrar os movimentos e imobilizar a tarde frenética de  negócios e intenções.
Como bom mineiro que volta da roça num final de tarde, com um abraço "descarreguei" as imagens que trazia no meu embornal de pano.
E a noite desceu feliz